sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Beijo da Morte - por Marina Amaral


      Os olhos do jovem apenas eram capazes de ver o invólucro exterior, uma belíssima mulher alta com uma cabeleira ruiva abundante, formando canudos estilizados, de pele marfínea, olhos apelativos e meigos e um corpo com medidas de modelo, peito generoso, cintura fina e ancas bem torneadas. Tudo nela constituía um chamariz para o sexo oposto o cheiro almiscarado, a voz convidativa ou mesmo as roupas usadas com o intuito de fazer sobressair todos os seus atributos físicos. Usava todos os factores com que a natureza a tinha dotado, quando era ainda uma simples humana, com o propósito de cativar a atenção e ludibriar a sua presa, preparando-a para o golpe final. O momento em que os seus proeminentes colmilhos penetrariam na jugular do jovem, da qual sorveria energicamente o liquido vermelho, quente, borbulhante ligeiramente salgado e latejante, que ela conseguia ouvir perfeitamente mesmo à distância. Um néctar capaz de revigorar um corpo debilitado após uma tentativa de drenagem na noite anterior.

      Assim, que o jovem obsequioso se aproximou de Cassandra com o objectivo de ajudar a mudar o pneu, – pneu esse que ela própria tinha rebentado deliberadamente, tecendo uma armadilha para apanhar uma vítima – desencadeou nela um frêmito corporal inesperado antecipado pelo odor emanado pelo sangue sedutor e irresistível do jovem franzino e desenxabido. Antevendo o momento em que os seus caninos entrariam em contacto com o seu pescoço e o sangue deslizaria para a sua garganta.

      Poupou as últimas forças para levar a cabo o seu plano, o que foi relativamente fácil, uma vez que nem o jovem nem nenhum homem era capaz de resistir aos encantos da sua aparência física. Iludiu o jovem com um beijo, a vítima ficou siderada com essa possibilidade e num ápice, embaçou-o no beijo da morte. Quase como que hipnotizado, incapaz de se mover deixou-se ficar imóvel enquanto ela se saciava. Depois de saciada a sede e as forças restauradas, Cassandra abandonou o jovem corpo exangue num fosso de beira de estrada, e seguiu caminho, revigorada e restabelecida, idealizando uma nova emboscada para a próxima caçada.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Autora: Marina Amaral

  •  Poste Aqui
  • Nenhum comentário: