quinta-feira, 26 de junho de 2014

O Sonho - por Sandra de Sousa


   
      Eram 6h da tarde de uma quarta-feira, e eu estava sentada na sala de espera do consultório do dentista. Tinha andado agitada o dia todo, detestava ter de vir ao dentista. Aqueles aparelhos todos sempre me meteram medo e agora já com 32 anos continuava a ficar assustada só de os mencionar.

      Enquanto aguardava, pude reparar que a sala de espera tinha um ar peculiar. Já quando entrei não pude deixar de notar na enorme porta vermelha, e agora reparava que as paredes estavam vestidas de branco com apenas alguns acessórios alusivos a placa dentária. O balcão situava-se na esquina e por trás deste encontrava-se uma jovem que aparentava ter 24 anos, era muito branca, tinha cabelo preto e uns olhos negros muito intensos. Pensei para mim própria que ela devia estar na capa de alguma revista de tão bonita que era.

      Era a primeira vez que me encontrava ali porque o meu dentista tinha se reformado. Encontrei o nome deste numa revista de saúde e achei-o apelativo. Chamava-se Vicente Diogo.

      A jovem recepcionista levantou-se, e dirigindo-se a mim, pediu para segui-la, eu assim fiz e quando dei por mim estava no meio de vários corredores muito brancos. Chamou-me a atenção o mini vestido que esta envergava porque não o achei adequado ao sítio onde trabalhava.

      Quando entrei no consultório o Doutor estava voltado de costas para mim, senti logo um nó a formar-se na minha garganta juntamente com o tremor e o suor das mãos. Ele voltou-se e qual não foi a minha surpresa quando pude notar que ele mais parecia o irmão da jovem da recepção do que Doutor. Era tão lindo como ela, com os seus cabelos e olhos negros como a escuridão da noite e a tez branca como a neve. Deu um grande sorriso e pude ver os seus lindos dentes brancos.

      Depois dos cumprimentos formais, ele mandou-me sentar na cadeira e pediu-me para lhe explicar o porque da minha vinda. Após uma breve explicação da minha parte, ele começou o procedimento. Não sei porque, mas encontrava-me mais relaxada do que o habitual. O cheiro que se fazia sentir naqueles sítios e que antes tanto me incomodava, agora não passava apenas de uma breve insinuação ao meu anterior medo.

      Tudo corria bem, ate ao momento em que sinto o cravar de uns dentes no meu pescoço. Tentei gritar mas não conseguia. Estava imóvel.
Agora percebia tudo, percebia porque o medo já não invadia o meu corpo, percebia a beleza e a paz daquele sítio. Já tinha ouvido falar daqueles seres, mas sempre pensei que fosse um boato de gente que não tinha mais nada com que se preocupar. Mas agora era a minha vez de me preocupar. Mas como? Não havia hipótese alguma de conseguir-me salvar. A única coisa que sentia era o sangue a sair do meu corpo. Não era uma sensação má, muito pelo contrário. Era como se me estivessem a acariciar, como se estivessem a fazer amor comigo.

    Aos poucos fui sentindo que perdia as forças, que a alma que estava aprisionada naquele corpo sem valor deixava de resistir. Comecei a ouvir um barulho que não me era estranho, mas por se encontrar distante não conseguia perceber o que era. Mas o som cada vez estava mais nítido e pude perceber que era o som do meu despertador. Estava confusa, o que é que o meu despertador fazia ali? Foi então que percebi que tudo não tinha passado de um sonho. Dei um salto e pus-me em pé! Gotas de suor escorriam da minha testa e tinha as mãos a tremer. Olhei em volta do quarto e ainda não tinha amanhecido. Dei outro salto quando percebi que não me encontrava sozinha. Queria gritar e não conseguia. Era ele. Ele estava ali. Afinal não tinha sido um sonho. Fui a correr para a casa de banho e olhei-me ao espelho e estava ali a cicatriz no meu pescoço. Estava bem visível. Mas não era só isso que era visível. Pude reparar como a minha tez se encontrava lisa e branca como porcelana e o meu cabelo encontrava-se mais comprido e brilhante amarelo como sol.

      Era verdade. Agora eu fazia parte deles. Era como eles. Uma vampira. Fui até ao quarto e o Vicente estava lá, exactamente como se encontrava uns minutos antes. Estava imóvel e a única coisa que deixava transparecer era um sofrimento inteligível.
Ele olhou para mim e disse: “Desculpa. Estava farto de estar sozinho, e fui ai que te vi. Foi mais forte do que eu.”
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Autora: Sandra de Sousa