terça-feira, 27 de maio de 2014

Encontro com o vampiro - Por Liliana Piedade

      Tic Tac. Tic Tac. Tic Tac.
      BAM!
      Um estrondo seco ressoou pela sala escura. Num impulso, tinha acabado de atirar o relógio contra a parede. Eu estava doida, completamente fora de mim. Lentamente, baixei-me para averiguar o lamentável (ou assim o tinha pensado) estado do relógio.
… Tic Tac. Tic Tac. Tic Tac.
      Não sofreu nada mais que um estilhaço. A minha mente, como já era costume, virou-se para o lado negativo. Bolas, nem sequer tenho forças para partir um mísero relógio, quanto mais lidar com um vampiro sedento.

      Eu nem sequer queria este trabalho. Preferia mil vezes estar a entrevistar o presidente enfadonho de alguma empresa milionária que não estivesse arrepiantemente atraído pelas veias do meu pescoço. Estremeci. Mas é claro, segundo o patrão, aparentemente só eu tinha os níveis necessários de tendências suicidas para vir fazer a entrevista a um vampiro possivelmente psicótico a troco de uns extras para pagar a renda.

      Começava a pensar que talvez fosse melhor começar já a preparar uma tenda à beira da estrada.

     O vampiro estava atrasado. Talvez nem viesse. Ou talvez tivesse parado para a “refeição”. Ou talvez eu seja a refeição. Estremeci pela enésima vez.

      De repente, a janela abriu-se e de lá saiu uma corrente de vento frio que me arrepiou (mesmo que arrepiada já eu estivesse). Oh, uma entrada dramática. Tão típico.
Encostei-me à parede, não querendo ser apanhada de surpresa como nos filmes de terror (porque o monstro aparece sempre por trás), e acabamos por nos perguntar qual será o QI das personagens. Neste momento questionava-me em relação ao meu.

      Inconscientemente, apertei o crucifixo que trazia ao pescoço com muita força. Ou era isso, ou era começar aos pontapés com o ar. Pensar-se-ia que a primeira opção teve muito mais dignidade.
      Contudo, foi o que desencadeou o primeiro sinal de vida (oh, a ironia!) do vampiro em questão. E a sua reacção não foi nada do que eu estava à espera.

      Ele teve o atrevimento de se rir.       
    
      Como eu fiquei zangada! Quando ele se dignasse a aparecer no meu campo de visão, ia partir aqueles dentes afiados um por um.

- Não acredito que ainda existam pessoas que acreditam no devastador poder de uma cruz – ouviu-se uma voz fria, com um distinto tom de escárnio.

      Senti-me a ficar vermelha, ao mesmo tempo de fúria e de vergonha. Excelente, torna-lhe a tarefa mais fácil ao relembrá-lo da quantidade de sangue que possuis. O teu sentido de auto-preservação não conhece limites.

      Finalmente, da voz veio um corpo e pela primeira vez consegui vê-lo. Desejava não o ter feito.
Das sombras surgiu o homem (se é que se pode apelidá-lo de tal) mais atraente que eu alguma vez tivera a infelicidade de deitar os olhos. Julgava impossível, mas ainda consegui a proeza de ficar ainda mais escarlate. Mais tarde, desculpei o meu comportamento como “típico de qualquer mulher que se preze”. Naquele momento a única coisa que me ocorria era, “Esquece a tenda, vai mas é arranjar uma caverna onde te possas ir esconder para sempre.”

      Não o vou descrever, nenhuma das minhas palavras iria fazer jus àquela visão e não quero que o meu leitor me julgue de tonta ao me delongar em disparates típicos de uma menina de escola.   
Posso dizer que pouco me lembro do que foi dito. A minha mão entrou em modo automático, e limitei-me a escrever. O meu cérebro estava longe. Certamente que seria uma vítima fácil, e com o passar das horas, o meu medo desvaneceu. O meu problema era outro. O qual, como deverão compreender, prefiro não falar.

     No final, acabei por omitir grande parte das informações que obtive. O meu entrevistado não parecia muito disposto a contar muitos detalhes sobre si próprio. Parecia mais curioso em falar com uma humana que não fugisse a sete pés ao vê-lo. E quanto ao pouco que retirei, queira compreender, caro leitor, a história dos vampiros tem pertencido ao imaginário de todos nós durante séculos. Quem sou eu para desfazer (ou não) os mitos que sempre existiram? Uma muito pobre jornalista, poderão responder.
Bom… talvez precise de arranjar outra forma de pagar a renda.
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Autor: Liliana Piedade

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Um comentário:

GraziOtome disse...

Nossa que perfeito <3... nem sei como cheguei nesse site .-. mas é VAMPIRO <3 Então f***-se amo muito tudo isso <3