terça-feira, 23 de outubro de 2012

O VAMPIRISMO EM ALGUNS LOCAIS DO MUNDO




Índia



A Índia é um dos locais que, juntamente com o Egipto e a China, tem mais elementos para esclarecer o fenómeno dos Vampiros. Asuras, Rakshasas e mais uma infinidade de seres vampíricos fazem parte da mitologia indiana, sem falar em várias divindades que têm facetas vampíricas evidentes, como a deusa Kali e seu marido Shiva. Os Rakshasas habitavam locais de cremação, onde inúmeros cadáveres eram cremados. Estavam sempre prontos a atrapalhar a consecução espiritual dos ascetas. Datam da era védica, seu líder é Ravana, de dentes pontiagudos e olhos sinistros, inimigo de Rama. Eles portam unhas longas e venenosas, sua aparência é feroz, sua cor é o azul escuro, mas podem ser verdes ou amarelos.




Os Rakshasas são senhores de grandes tesouros, guardiões de templos e palácios. Vagavam à noite em busca de sangue de crianças, em especial dos recém-nascidos. Também gestantes faziam parte de suas principais vítimas. Eles se faziam acompanhar muitas vezes por sacerdotisas, que participavam de seus sangrentos banquetes, as Hatu Dhana. Além dos Rakshasas, Asuras e as Hatu Dhana, havia os Pisashas; eles se alimentavam dos restos da cremação e transmitiam inúmeras calamidades. Outra classe de seres Vampiros era a dos Bhutas, o espectro dos mortos. Os candidatos principais a se tornarem Bhutas eram os que padeciam por morte antinatural, suicídio ou execução; eram loucos, portadores de alguma moléstia ou deformados. Transformavam-se, após a morte, em mortos-vivos. Em certas localidades da Índia, aqueles que morrem de maneira semelhante às descritas são sepultados ao invés de cremados. De forma alguma isso se restringe à Índia, já que em praticamente todo o mundo pessoas que sofreram morte violenta ou tiveram má índole são fortes candidatos a Vampiros.

Os Bhuta se alimentam de fezes e intestinos encontrados em corpos decompostos. E também
promovem doenças nos seres humanos, uma forma de gerar o seu alimento. Eles também vivem perto do local de cremação, transformam-se em corujas e morcegos, mas igualmente aos Rakshasas atacam recém-nascidos. Podem obsediar uma pessoa, e a pessoa assim obsediada viria a atacar outras, devorando-as.

Sir Richard Burton, um dos mais importantes aventureiros do século XIX, conta-nos a história do livro Vetala Pachisi, os vinte e cinco contos de um Baital. O narrador destas vinte e cinco histórias é um Baital, um Vampiro, um ser que se apossava do corpo de um morto para executar suas atividades vampíricas.

Esse livro trata da história de um gigantesco morcego negro, vampiro ou espírito maligno que habitava e animava cadáveres. É uma lenda antiga, cujo estilo de narrativa influenciou As Mil e Uma Noites, O Asno de Ouro, de Apuleio, e o Decameron e o Pentameron, de Giovanni Boccaccio. Essa narrativa tem como personagem o Rei Vikram, que teve seu reinado por volta do século I.

“O ser pendia de cabeça para baixo, seus olhos, que estavam arregalados, eram de um castanho
esverdeado e nunca piscavam. Seus cabelos também eram castanhos, e castanho era seu rosto. Três matizes diferentes combinadas lembravam um coco seco. Tinha o corpo magro e cheio de nervuras, como um esqueleto ou um bambu. Estava pendurado em um galho como um morcego, pela ponta dos dedos, e seus músculos contraídos ressaltavam como cordas de fibra.”

“Não parecia ter uma gota de sangue sequer, ou esse estranho líquido devia ter escoado para a cabeça; quando o Raja (Vikram) o tocou, a pele era fria como o gelo e viscosa como a de uma serpente. O único sinal de vida era o agitar furioso de uma pequena cauda, como a de um bode. O bravo Rei deduziu — um Baital, um Vampiro, um Vetala Pancha Vishnati!” (Baital é a forma moderna de Vetala).

Encurtando a narrativa, Vikram faz inúmeras tentativas de capturar o vampiro, mas este é esperto, e contando inúmeras histórias consegue sempre voltar a sua árvore. Por fim, o Raja o leva até um Yogue que estava esperando por eles perto de um crematório. A área era cheia de hienas, abutres e assombrada por espectros. O vampiro havia se apossado do corpo de um jovem, e, ao se aproximar do Yogue, mas não tão perto para que este pudesse ouvi-lo, avisou o Rei Vikram de que o Yogue na verdade era um gigante monstruoso disfarçado. Após dizer isso, o vampiro abandonou o corpo do jovem, que voltou a ser um corpo normal.

O Rei ficou em dúvida a respeito do que o vampiro havia falado. Ele tomou parte nas cerimónias do Yogue a contragosto, sempre esperando o pior, e graças a isso foi salvo. De fato, o Vampiro falara a verdade. O Vetala é um demónio vampiro com características de semideus. Ocasionalmente, o Vetala pode promover a possessão de um cadáver, animando-o para suas práticas hematófagas.

Outros dois tipos de vampiros importantes eram o Gayal e Churel. O Churel é um Vampiro feminino, uma mulher que teve morte no parto ou menstruada. Ela aparece como uma linda donzela, extremamente sedutora, drenando suas incautas vítimas enquanto estas se encontram deleitando-se em seus braços. Outras vezes, ela aparece com dentes caninos enormes, e de sua boca pende uma língua negra, e sua cabeça é ornada com uma selvagem cabeleira igualmente negra. Para prevenir-se dos ataques dela, são colocadas sementes em sua antiga casa, pois se supõe que este vampiro feminino também tenha obsessão por contar (dessa forma se esquece do ataque predador). O cadáver do Churel tinha os pés presos em cadeias, os ossos quebrados e era enterrado em decúbito dorsal, para impedir seus ataques.

Já o Gayal, o Vampiro do Punjab, assume características de Vampiro mais uma vez devido a problemas no sepultamento, por ser uma pessoa sem família para zelar por seu funeral, ou se a família por alguma razão não realizou as cerimónias. Ele é enterrado sumariamente sem ritos póstumos. O Gayal ataca seus parentes e os filhos de seus vizinhos. A destruição do Gayal é feita quando lhe fazem os ritos póstumos e lhe queimam o corpo.
As pessoas se preveniam de seus ataques usando uma mistura de água do Ganges e leite, na esperança de que ele assim se saciasse.

Os Ciganos



Os ciganos são originários da Índia, possivelmente descendentes dos dravidianos, povo autóctone, expulso pelos arianos do Norte da Índia. Os dravidianos são os pais do Yôga e do Tantra; sua civilização era matriarcal e Shiva era sua divindade principal. Ao perderem a guerra contra os invasores, eles migraram para o sul da Índia, mantendo os seus conhecimentos em sociedades secretas. Da sua terra natal, os ciganos trouxeram Sara, Santa Sara, ou melhor, Kali. Tanto ela, como seu marido Shiva, são retratados na arte hindu em actos vampíricos, e nessas representações há ainda um forte apelo sexual, de uma forma muito comum aos Vampiros. A Índia, como já vimos, conta também com inúmeros seres vampíricos. Os ciganos Começaram sua migração por volta do ano 1000 da era vulgar (Cristã), e por volta do século XIV já eram vistos no Ocidente, após uma estadia na Turquia.

Duas teorias sobre a origem da designação “cigano” são a do egiptano, ou seja, egípcio, derivando em gitano, ou a que faz alusão aos atzigani, seita herética do Oriente Médio. Para Voltaire, eles eram cultuadores da deusa Ísis vindos da Síria. Muito curiosa foi essa associação com os egípcios, já que os ciganos chegaram à Europa sem passar pelo Egipto. Talvez isso seja uma menção ao pequeno Egipto na Grécia, ou esse lugar tenha esse nome justamente devido aos ciganos. Os gregos desde sempre tiveram os egípcios como grandes mágicos e adivinhos; será que notaram essas características quando os ciganos foram seus hóspedes?

Curiosamente, os locais onde os ciganos tiveram influência mais proeminente estão no epicentro dos casos de Vampirismo que varreram a Europa no século XVIII. Já em 1700 há relatos na Grécia sobre a actuação de Vampiros (Vrykolakas). O termo é de origem eslava, e igualmente no Império Austríaco são registrados casos amplamente documentados. Por mais que esses casos tenham o século XVIII como foco, eles não foram tratados como novidade pelas populações dos locais onde se desenrolaram, o que faz pensar que não era algo incomum.

Os ciganos, como os egípcios, tinham ritos de oferenda de alimentos aos mortos. Em troca, pediam sua protecção e outros favores. Eles também tinham uma espécie de feiticeiro (xamã) chamado Kaku, que tinha posse do poder de domar animais sem o uso da força, através do conhecimento dos poderes hipnóticos, incluindo o uso do terceiro olho.

Ao que parece, eles guardaram a sabedoria ancestral indiana, incluindo a cerimónia do Maithuna indiano, uma união sexual tântrica. O casal se uniria para este fim, muitas vezes não se vendo nunca mais. Seu objectivo era a harmonia dos opostos e o êxtase místico. Fazem uso de um asana, como o da Yôga, e exercícios com os olhos (tratakas). Eles crêem que o corpo humano é entrecortado de canais que levam energia para os mais diversos pontos, e disso se deriva uma técnica usada em curas que também pode despertar intenso desejo sexual. Um fato curioso é que os Kakus ciganos têm especial respeito por Jacques de Molay, o último Grão Mestre Templário. O porquê disso é uma boa pergunta, mas a lenda fala que Molay esteve em contacto com eles no Oriente, em busca de conhecimento mágico. Os ciganos, em muitos locais, foram tratados como heréticos, bruxos e vampiros. Sofreram com fogueiras e torturas, além de não poderem ser enterrados nos cemitérios comuns, dentre outras coisas. Como já vimos, os ciganos são místicos por natureza, e seu universo é recheado de seres imaginários e mágicos.

Os Vampiros têm um lugar de destaque na religiosidade cigana, sendo que havia até a profissão de “caçador de vampiros” (Dhampir).
Esse caçador era filho de um Vampiro, um elo entre o humano e o vampírico. Os ciganos acreditavam que o Vampiro poderia gerar filhos mesmo depois de morto, e alguns Vampiros inclusive teriam constituído novas famílias.

Como em outras culturas e nos casos de “almas” presas a Terra (ver o capítulo “duplo etérico e corpos sutis”), o Vampiro era fruto de morte violenta, falhas no sepultamento ou ainda influência de animais sobre o corpo do morto; assuntos não terminados também eram relevantes.

O Mulo era a forma mais conhecida de vampiro cigano, um morto-vivo que atacava durante a noite e voltava ao amanhecer para sua sepultura. Como a maior parte de todos os vampiros ele era um ser etéreo. Podia assumir várias formas animais, e seus ataques dizimaram algumas famílias e inúmeras cabeças de gado. Alguns relatos sobre o Mulo mencionam as relações sexuais entre o Vampiro e sua esposa, ou amante, ainda viva. Essas relações poderiam ir das mais calmas às mais violentas.

O Mulo poderia gerar filhos dessas uniões, e eles eram vampirovic, vampiro filho, ou lampirovic,
pequeno vampiro, em idioma sérvio-croata. Outro nome para o filho de um vampiro é dhampir. Para os sérvios, o Dhampir, filho do vampiro, tinha poderes especiais para detectar e destruir vampiros. Dessa forma, famílias que tinham sangue vampírico se tornaram caçadoras de vampiros. No Brasil, os primeiros grupos de ciganos chegaram no século XVII, no Maranhão.

Roma



No Império Romano, o vampiro era uma bruxa que, em forma de coruja, atacava crianças para sugar seu sangue. Elas eram chamadas de Strix, o que culminou em strega, italiano para bruxa. A strega, mesmo durante o Império Romano, já tinha características vampirescas. Voava à noite, sugava o sangue de crianças e se envolvia sexualmente com homens que acabavam drenados.
Muito do que foi usado no combate ao Vampiro foi também usado contra a strega, tanto é que Carlos Magno teve de promulgar uma lei que proibia queimar ou canibalizar stregas. Ambas as práticas foram adoptadas contra o vampiro, inclusive comer pedaços dele como forma de cura. O lobisomem também foi um fenómeno conhecido em Roma e na Itália.

Arábia e os Muçulmanos



Os muçulmanos têm algumas entidades vampíricas, dentro elas os Ghouls. Ghouls são seres de forma feminina que assombram sepulcros, atacam e devoram seres humanos. São similares à Lilith, ou seja, um demónio feminino que se alimenta de corpos mortos, infestando cemitérios. Escavam as tumbas para devorar as carcaças. Muitas vezes esses Ghouls eram tidos como metade mulher, mantendo uma vida marital sem que o esposo soubesse o que ocorria. Ele atraía suas vítimas até uma ruína deserta, para então sugar o sangue de suas veias e comer sua carne. Nas Mil e Uma Noites, há uma passagem que trata exactamente sobre o Ghoul.
Um rapaz se casa com uma jovem de nome Amine, e ao jantarem ele nota que ela come muito pouco, nem o suficiente para um pardal. O marido observa que ela se ausenta à noite, até que um dia a segue. Ela entra em um cemitério, e o marido se esconde atrás de uma parede, com visão suficiente do cemitério e do local para onde sua esposa ia. Para sua surpresa, ela se metamorfoseia num Ghoul, e outros desses seres se aproximam para uma reunião que acontece bem ali. Ela e outros Ghouls desenterram um corpo, e prontamente o dividem em bocados devorados por todos. Os Ghouls, com grande compostura, travavam uma conversa em meio ao seu festim diabólico. Talvez mais fantástico que o prato principal, tenha sido o tema da conversa. O marido, de seu esconderijo, podia ver mas não ouvir o que se passava. Ao término, lançaram a carcaça de volta à sepultura e a enterraram.
Sidi Nouman (o marido), esperou o próximo jantar com a esposa, que mais uma vez mal tocava os alimentos. Ele perguntou se a carne de um homem morto era mais saborosa que o jantar. O Ghoul se enfureceu e jogou uma maldição sobre Sidi, transformando-o num cachorro. Através das artes mágicas de outra mulher, ele volta à forma humana e ainda ganha uma poção mágica destinada à sua esposa. Quando se defronta com Amine, lança a poção nela com a seguinte frase: “Receba o castigo da maldade”. A feiticeira é transformada em uma égua, e imediatamente conduzida a um estábulo.
 Na Turquia, alguns Dervixes eram caçadores de vampiros. Eles podiam ver o espectro do morto e caçá-lo. O seu equipamento consistia em uma longa barra de ferro ter minada em ponta aguçada. Juntamente com eles, na profissão, havia os Sabbatarians, pessoas que haviam nascido no sábado, “um dia especial”.
Estes dois tipos de caçadores também eram encontrados na Macedónia. Em uma dessas caçadas um Sabbatarian, perseguido por um vampiro, entra em um celeiro. Sabendo da compulsão natural dos vampiros por contar, ele espera o vampiro se defrontar com os cereais. Aproveitando a distracção do vampiro, ele o destrói.

Grécia



A Grécia e a sua rica mitologia são um campo vasto para o estudo do fenómeno do vampirismo. As Lâmias, Empusas, Mormo e a própria Hécate são representantes clássicos desse fenómeno e suas histórias se perdem nos séculos.
A Lâmia é um ser vampírico dos mais antigos. Após a perda de seus filhos, Lâmia, uma bela mulher, foi tomada de ódio absoluto e vingou-se de toda a raça humana atacando crianças e sugando-lhes o sangue, história muito similar à de Lilith. Esse espectro feminino também se revestia de sedução. Quando as vítimas eram rapazes, o demónio aparecia como uma bela mulher. A história de Menippus é um bom exemplo.
Ele conhece uma bela moça, em verdade Lâmia, cujo prazer era se alimentar de jovens corpos, com sangue puro e forte.
Apuleio, em Metamorfoses, narra em uma passagem que as feiticeiras da Tessália podiam assumir a forma de qualquer animal. No caso em questão, Telefron, um estudante, tinha sido incumbido da tarefa do guardar um cadáver para que as feiticeiras não dilacerassem com seus dentes a face do morto. A Stringla, uma espécie de vampiro feminino especialista em drenar sangue de crianças, como espírito da noite, vinha e atacava as crianças. A volta do reino dos mortos não era de forma alguma algo desconhecido para os gregos.

O poder do sangue como agente materializador era também por eles conhecido. Ulisses encheu uma cova de sangue para propiciar o aparecimento de Tirésias, um vidente, com sangue fresco nutriu a aparição ajudando-a a adensar-se, e outros espectros lambem se materializaram valendo-se desse sangue. Pausânias, no século II, já mencionava a lei grega que mandava queimar os cadáveres de quem quer que fosse acusado de visitar seus parentes após a morte. A esse solo fértil foi agregada a cultura eslava, que principia por volta do século VI sua entrada na Grécia.

A Grécia conta com inúmeros relatos de atividade vampírica. O vampiro grego mais conhecido é o Vrykolakas. O termo é de origem eslava e possivelmente se refere a algum ritual em que o sacerdote utilizava uma pele de lobo. Bem entendido que, para os gregos, o licântropo não era, de forma alguma, uma novidade.

O Vrykolakas, para os gregos, era o morto-vivo. Tinha a aparência de quando estava vivo, e podia também entrar em corpos de animais ou assumir as suas formas. Por mais que os vampiros do leste europeu tenham uma fama enorme, a maioria dos casos de vampirismo ocorreu na Grécia.

Quem é atacado por um Vrykolakas se torna invariavelmente um deles. O Vrykolakas é um dos vampiros mais vorazes e selvagens, e em seus ataques rápidos e assassinos rasgam a carne com os dentes para se banquetear com o sangue. O nome Vrykolakas talvez também seja uma referência à licantropia. No folclore eslavo, lobisomens se tornam vampiros após a morte. Há referências (escassas, todavia) de lobisomens gregos que se tornaram vampiros (Vrykolakas) após sua morte.

Os Vrykolakas não atravessavam água, por isso muitos foram mandados para ilhas desertas na
esperança de que por lá ficassem. Essa prática foi usada em Hidra, Kythnos e Mitilene. “A ilha de Hidra antigamente havia sido infestada por vampiros, e um Bispo se livrou deles ao mandá-los para Therásia, uma ilha desabitada, pertencente ao arquipélago de Santorini, onde eles ainda caminham à noite, mas não podem cruzar a água salgada”. Em outros locais da Grécia, em especial em pequenas ilhas, o vampiro é conhecido como Vurvukalas, Vrukolakas, e os cretenses o chamam Kathakanas.

O Vrykolakas era essencialmente nocturno, mas suas histórias incluem manifestações em plena luz do dia. Sábado era o dia em que o Vrykolakas ficava em sua tumba. Justamente no sábado eram exumados os corpos dos suspeitos. Uma cerimónia de exorcismo era levada a cabo, e o corpo era removido para alguma ilha distante ou queimado.

O Vrykolakas muitas vezes se comporta como um poltergeist, destruindo mobília, produzindo sons e mais inúmeras manifestações associadas. Ele também pode voltar para viver com a viúva, e até mesmo empreender as tarefas mais comuns e tranquilas.

O vampiro grego por vezes visitava a viúva após a morte, e há relatos de crianças geradas desta forma; ele também podia mudar para outra cidade, onde constituía família. Na Grécia, o vampirismo era herdado. Crianças filhas de vampiros poderiam ser vampiros, ou caçá-los.

China



A China é uma das possíveis pátrias dos vampiros. O mais importante nesse país é que os vampiros são encontrados há mais de 2600 anos, já que em 600 a.C. já havia relatos de vampiros em solo sino. Na China, um dos vampiros que mais nos chama a atenção é o chiang-shih, com unhas muito longas, cabelos brancos com tons de verde e olhos avermelhados. Esse vampiro podia voar, mas, como o grego, não atravessava água e deveria voltar à sepultura após suas actividades, como um morto-vivo.

Tinha igualmente capacidade de se metamorfosear em animais, em especial em lobo. Era destruído pelo fogo, e o cadáver passava também por cerimónias de exorcismo. Para os chineses, um demónio se apossava da alma do defunto, causando a incorruptibilidade do corpo, e levando-a ao vampirismo. Ainda segundo os chineses, o ser humano tem duas almas: a Run, ou alma superior, e a P’o, ou alma inferior. Uma teria aspectos mais elevados, a outra, aspectos animais. Essa alma inferior era a causa do vampirismo, e qualquer ínfima parte do defunto poderia guardar o vampiro. Os chineses também têm várias histórias de crânios que falavam, e eram animados pela alma P' o do defunto, causando inúmeros problemas.
O Vampiro na China, como em outras partes do mundo, é activo ao cair a noite, voltando à sua sepultura ao raiar da aurora. Uma lenda chinesa trata da volta dos mortos e da destruição advinda disso. Um funcionário do governo chinês, Chang Kuei, estava em viagem quando, em dado momento, um temporal se abateu. Ele se refugiou em uma casa. Lá, encontrou uma bela dama. A princípio tomaram chá, para mais tarde se unirem numa torrente de paixões. Ao despertar, no dia seguinte, qual não foi a sua surpresa ao se encontrar sobre a lápide de uma tumba, com seu cavalo a alguns metros dali. Ele o montou e saiu a toda brida pela estrada.
Ao chegar a seu destino, foi interrogado devido à demora, e seu relato revelou onde estava a tumba de uma jovem prostituta que havia se enforcado. O fantasma dela havia seduzido inúmeras vítimas. O clamor dessa história chegou aos ouvidos do magistrado da região, que mandou abrir a tumba, onde o cadáver foi encontrado como se estivesse a dormir. Cremaram-no imediatamente. Curiosamente, após a destruição do corpo da vampira, uma seca que grassava a região teve fim.
Outra história de vampiros na China é a que se segue. Uma mulher foi acordar seu marido e, ao entrar em seu quarto, viu-o sem cabeça. Não havia uma gota de sangue em nenhum lugar, o que era muito estranho devido à decapitação, que faria o quarto estar encharcado de sangue. Ela chamou as autoridades e foi detida como a principal suspeita, apesar de alegar inocência. Algum tempo depois, um lenhador encontrou um caixão semi-escondido pela vegetação, mas com a tampa parcialmente levantada. Ele ficou tomado de receio e chamou várias pessoas para juntos averiguarem o conteúdo. Dentro estava um cadáver, mas com aspecto de vivo, e tinha um semblante horripilante. Sua boca tinha dentes pontiagudos e vertia uma espuma avermelhada. Nas suas mãos estava a cabeça do marido infeliz. Eles chamaram as autoridades; um guarda armado veio rápido, antes do pôr-do-Sol. Os braços do vampiro tiveram que ser cortados para libertar a cabeça, e o sangue escorreu em profusão. Tudo foi queimado, e a mulher liberta.

Malásia



Na Malásia encontramos uma infinidade de vampiros; até os dias de hoje eles se fazem presentes no folclore. Um tipo de vampiro malaio está associado à actividade de um feiticeiro, que faz seus ataques enquanto dorme. O Mauri (a designação deste tipo de vampiro) entra sorrateira casa adentro até o peito de sua vítima, onde chupa o sangue. Esse feiticeiro pode continuar suas actividades após a morte, pois há casos de cadáveres que adoptaram essa conduta. Outros vampiros são o Bajang e o Langsuir. O Bajang lembra um furão enquanto o Langsuir é similar à Strix Romana. Para libertar-se dos ataques do Bajang, uma curandeira é chamada. A vítima sofre convulsões, delírios e mais uma infinidade de mazelas. A curandeira induzirá a vítima, no momento do suposto ataque, ao relatar o que está ocorrendo, e dessa forma detectará o vampiro.
Sendo confirmado o vampiro, este era morto, mas, com a dominação britânica, a execução foi proibida. O Langsuir é uma mulher que morreu no parto, sendo que o Langsuir original adquiriu o vampirismo ao ver que seu bebê havia nascido morto. Quando uma mulher morria no parto, ao ser enterrada, ovos foram colocados embaixo de suas axilas, suas mãos eram fixadas com agulhas e contas colocadas em sua boca. Dessa forma, tinha-se a crença que ela não se transformaria em vampira.
Outras formas de vampiros eram o Penanggalan e o Pontianak. O Pontianak é um natimorto como o Ustrel descrito por James Fraser. Aparece também como uma coruja, fazendo par com sua mãe Langsuir. Na península malaia, esses nomes, em algumas localidades, eram trocados — ora o Pontianak era a mãe, ora o inverso. A criança natimorta recebia o mesmo tratamento da mãe. Os malaios têm toda um ritualística para proteger mulheres e crianças dos ataques de vampiros.

O Penanggalan é um estranho vampiro, ou melhor, vampira, que tem o intestino e o estômago expostos. Ele voa sobre habitações atrás de crianças. Uma descrição interessante de um nativo sobre o Penanggalan foi tomada por Walter Skeat em seu livro Malay Magic. Vamos a ela.
No princípio, o Penanggalan era uma mulher. Ela aprendeu as artes mágicas directamente com um demónio, e se colocou a serviço dele com afinco. Passado o prazo acertado, ela pôde voar, ou parte dela, já que o corpo ficava, e apenas sua cabeça com os intestinos dependurados voava, em busca de sangue. Suas vítimas tinham como certa sua morte. Se uma pessoa tocasse o sangue que gotejava dos intestinos, contrairia uma doença séria e seu corpo ficaria repleto de feridas. As vítimas prediletas do Penanggalan eram as mulheres no parto. Para se defender, as portas eram fechadas e espinhos espalhados, nos quais a vampira prenderia seus intestinos.
Na Polinésia, os vampiros deixavam as suas sepulturas para se refastelar com os vivos, devorando-lhes o coração. Além disso, feiticeiros comiam a carne do morto, criando dessa forma uma ligação com a alma do falecido, e essa ligação era usada contra as vítimas do feiticeiro, que então sugaria a vitalidade do vivo.
Os mongóis foram um dos povos que atravessaram o Leste Europeu juntando suas tradições ocultas ao já extenso folclore local. Não podemos deixar de pensar que os mongóis tiveram contacto com a Índia, Tibete, China, e uma infinidade de países entre a Europa e a Ásia. E sabemos com certeza que na sua mitologia havia entidades vampíricas. A entrada dos mongóis no continente europeu se deu pelas terras do Leste Europeu.

Leste Europeu



Montague Summers narra a viagem de três cavalheiros ingleses, em 1734, pelo Leste Europeu. Eles ouvem a narrativa do Barão Valvasor dizendo que algumas partes do país sofriam uma terrível epidemia de vampiros. Os cavalheiros escutam que os vampiros são os corpos de pessoas falecidas, animadas por espíritos que se esgueiram para fora das sepulturas à noite. Esses seres vivem de se alimentar do sangue dos vivos. Não há lugar mais associado ao vampiro que o Leste Europeu. Por mais que sejam religiosamente diferentes, eles dividiram uma mitologia e centenas de casos de vampirismo.
Os primitivos eslavos tinham como divindade, dentre outras, Swetovid, o olho do mundo, deus negro, criador do bem e do mal. As cordilheiras dos Montes Cárpatos, desde Brabilow até a Valáquia e Saxônia, separavam-nos das hordas invasoras — os hunos, ávaros e búlgaros. Se, por um lado, os Cárpatos não os deixaram ser destruídos, por outro, os povos que atravessavam a região propiciavam uma mescla de culturas e folclore. Eles tiveram uma grande mitologia ligada ao vampiro, que de uma forma ou outra influenciou e foi influenciada por povos vizinhos. Na Albânia, o Vampiro era conhecido como Kukuthi, Kukudhi, Lugat, Vorkolaka. Há a crença, na Albânia, de que se o vampiro não for descoberto, por mais de trinta anos, ele adquire a capacidade de andar à luz do Sol. Leva, a partir desse tempo, uma vida de humano — este é o Kukudhi. A sua destruição é ou pela tradicional via da estaca e do fogo ou pelos lobos. Fora esse tipo de vampiros, os albaneses também conhecem o Vrykolakas.
Na Bulgária há o Vorkolaka, a alma de um criminoso que assombra o local de sua morte, atacando e sugando o sangue dos que passam nas imediações. O Vorkolaka é urna alma presa à terra, não podendo ir nem para o céu nem para o inferno. O local é liberto da maldição com cerimónias religiosas e erguendo-se uma cruz no local.
Outra forma de vampiro na Bulgária é o Obour, que nove dias após seu sepultamento já emite seus primeiros sinais. A princípio como um fogo fátuo que brilha na escuridão; quando passa por uma luz, uma leve sombra é projectada. Depois disso, faz um enorme estardalhaço, agindo como um poltergeist, destruindo pertences das pessoas e cuspindo sangue. Após quarenta dias, o Obour adquire aparência humana sólida, podendo levar a vida de uma “pessoa normal”.
Para destruir o Obour, ele deveria ser atraído por iguarias que lhe excitassem o paladar, como excremento humano, por exemplo. Isso era colocado dentro de uma garrafa, e quando ele entrasse nela seria arrolhado e destruído. Ícones sagrados podiam ser usados para compeli-lo a entrar na garrafa.

Ustrel, de acordo com James Fraser em Ramo d'Ouw, é uma criança nascida num sábado, que morre sem baptismo. Nove dias após o enterro, o Ustrel sai de sua sepultura e volta seu apetite contra um rebanho de gado que esteja nas redondezas. Quando está suficientemente forte, não precisa voltar mais à sepultura, morando nos corpos dos animais, ora nos chifres de um touro, ora no úbere de uma vaca, ora na lã de um carneiro. Para combatê-lo, os aldeões fazem num sábado duas grandes fogueiras numa encruzilhada, ossos são colocados por onde todos os rebanhos passam, e todos os outros fogos da comunidade são apagados.
Quando a manada vai passando entre as duas fogueiras, o Ustrel se lança de seu animal hospedeiro e cai na encruzilhada. O local deve ser frequentado por lobos, para que dessa forma a alcatéia destrua e devore o Ustrel. Os búlgaros também acreditavam que o vampiro podia deixar descendência, fruto do morto-vivo com uma mulher. Essa criança seria provida de dotes paranormais muito estimados para detecção e destruição do Vampiro.
Na Eslováquia há o Nelapsi, um predador de gado e seres humanos, que pode trazer uma peste e dizimar populações inteiras. No distrito de Zemplin, os aldeões crêem que o vampiro tem dois corações e duas almas. As pesquisas sobre o Nelapsi foram feitas por Jan Mjartan em uma viagem ao campo em 1949, e os resultados foram publicados com o nome de Povery de Vampirskev Zempline.
Na Polônia Oriental, o nome mais comum para um vampiro era Upier ou Upior. Os mesmos nomes podem ser achados nos países vizinhos da Ucrânia e Bielorússia. O vampiro polaco mantém estreita semelhança com os vampiros das nações vizinhas.
Dom Augustine Calmet descreve a acção deste tipo de vampiros: “O oupire come a mortalha feita de linho, que o envolve, como primeiro passo de seu reavivamento. O oupire pode aparecer do meio-dia à meia-noite. A noite, ele ataca seus amigos e especialmente seus parentes, abraçando-os e sugando-lhes o sangue. O modo para destruir um oupire é exumar o cadáver e então decapitá-lo e abrir seu coração.”

O sangue que escorria do ferimento servia para curar as vítimas dos ataques. Essa prática não se restringia à Polónia, já que na Roménia se comiam pedaços do vampiro, em especial cinzas do coração. Além do Upier havia a Upierzyca, sua contraparte feminina. Na exumação do Upier, o cadáver muitas vezes apresentava movimento dos olhos, língua e um bom estado de conservação geral. Além de devorar a própria mortalha, devorava inclusive partes de seu próprio corpo.

John Heinrich Zopfius, em sua Dissertação sobre Vampiros Sérvios, de 1733, diz: “Vampiros vagam à noite, saindo de suas sepulturas, e atacam pessoas que dormem tranquilamente nas suas camas, sugam todo o sangue de seus corpos e os matam. Eles atacaram homens, mulheres e crianças, não poupando idade nem sexo. Esses que estão sob a malignidade fatal da influência dos vampiros reclamam de sufocação a uma deficiência total, depois das quais eles logo expiram. Alguns a quem, quando às portas da morte, foi perguntado se poderiam contar o que estava causando seu falecimento, respondiam que o morto retornou da tumba para retirar a vida dos vivos.”

Para os sérvios, um lobisomem em vida seria um vampiro na morte, e assim os dois são muito proximamente relacionados. Alguns distritos pensaram até mesmo que pessoas que comiam a carne de uma ovelha morta por um lobo poderiam se tornar vampiros depois de morrer. Porém, os eslavos mantinham bem distintos os dois termos, sendo vampiro o morto que retorna para atacar os vivos e lobisomem alguém que se transforma em lobo. Havia também o Mahr que, ao que tudo indica, era a alma de alguém que retornava em busca de sangue. Poderia atacar parentes ou não. O Mahr, que podia inclusive estar vivo, causaria obsessão. O modo de destruí-lo é similar ao de outros vampiros, achando sua toca e expondo-o à luz solar, e cravando uma estaca em seu coração. Na Bulgária, são chamados Morava; na Polônia, Mora.

África e Países com Influência Africana



Na África, o fenómeno do vampirismo está intimamente ligado à magia e à feitiçaria. Contrariando a opinião de alguns autores, o vampiro era bem conhecido dos africanos, e para confirmar essa afirmação basta analisar a cultura africana e dos países onde houve influência africana, como o Haiti.
Asasabonsam é um vampiro encontrado no folclore Ashanti, que vive no âmago das florestas e tem forma humana. Só é avistado por caçadores que se aventuram nesses territórios. Ele ataca puxando suas vítimas para o alto das árvores.

Obayifo é um feiticeiro (a) que deixa seu corpo para sugar o sangue. As crianças são suas vítimas principais. Eles permanecem incógnitos na comunidade. Quando saem do corpo, fazem-no na forma de uma bola de luz. No Haiti, Luisiana e Jamaica, devido ao vodu e ao sincretismo (sendo o próprio vodu fruto do sincretismo), onde inúmeras influências se encontram culminando em uma tradição mágica poderosa e eclética, a figura do vampiro está intimamente ligada a práticas mágicas, com nítida influência africana.

Em Granada, é chamado Loogaroo, uma corruptela de Loupgarou, lobisomem em francês. Os Loogaroos geralmente eram mulheres praticantes das artes mágicas. Todas as noites, elas saíam em busca do sangue de suas vítimas, deixando seu próprio corpo na forma de uma bola de fogo. Qualquer fresta já era suficiente para o vampiro entrar, mas uma maneira de desviar o ataque, mais uma vez, era colocar arroz ou outra semente qualquer, pois o Loogaroo ficara entretido contando. O Loogaroo ataca também a criação, em especial a de cavalos.

Mesopotâmia



Mesopotâmia, ou vale entre rios, no caso o Tigre e o Eufrates, foi o berço de inúmeras civilizações: assírios, babilónicos, sumerianos, acadianos, entre outros. Esses povos tinham uma extensa mitologia e demonologia. O enfoque dado até hoje em inúmeros tratados sobre demónios nos faz lembrar os mesopotâmicos. Para eles, os seres demoníacos eram terríveis, poderosos e assustadores. Dentre todos, um demónio feminino terá vital importância para a vampirologia: Lilith. Montague Summers narra o conteúdo de uma plaqueta sumeriana em que Lilith é o tema.

Summers cita Dr. R. Campbell-Thompson, dizendo que muito possivelmente o objectivo da plaqueta seria proteger contra as visitas nocturnas de Lilith e suas irmãs. O tema Lilith será uma constante em praticamente todo este livro, mas especialmente no Capítulo V.

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