sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O coração de um Vampiro



       Passava das 19:30, quando o ser da noite despertou. Lentamente levantou-se, dirigiu-se para uma grande janela e puxa uma longa cortina que sai do teto até o chão e a luz artificial da rua invade o quarto, revelando o aposento do Vampiro. Ele permanece parado em frente a imensa janela de frente para a rua, com os olhos fechados… como se estivesse absorvendo aquela luz artificial, como se aquilo tivesse algum poder sobre ele. Um poder de fazer ele esquecer por um instante de tudo, de sua vida, pós-vida, acontecimentos, assassinatos para alimentar-se… quando ouve um leve bater na porta.
_ Senhor Valek – O empregado da casa chama o vampiro, que volta aos aposentos, saindo do momentâneo transe em que encontrava.
_ Pode entrar Pedro, estava acordado, perdido em pensamentos. – Valek vira-se para o rapaz que está parado em frente à cama do vampiro.

_ O Senhor Marcus ligou e disse que o senhor pode encontrá-lo no Hells Bells como sempre. Disse que tem alguns assuntos importantes à tratar.
_ Muito bem garoto. Obrigado. Vou tomar meu banho. Você pode fazer o que quiser, por hoje não resta mais nada aqui.
_Obrigado senhor Valek – Diz o rapaz de pouco mais de 19 anos, virando as costas e saindo pela porta fechando-a em seguida.
      O Vampiro vai até o banheiro, onde toma um longo banho… Sai depois de mais de meia hora ainda enxugando os longos cabelos castanhos .
Valek abre seu guarda-roupas de portas maciças, acendendo uma luz, mostrando uma variedade de roupas de tonalidades escuras diversas. Ele pega uma camiseta azul escura, uma calça jeans básica coloca ambas em cima da cama. Dirige-se ao sapateiro de onde tira um sapatenis de cor marrom escuro. Veste-se lentamente… meias, calça, sapatenis e antes que colocasse a camisa, abre o criado mudo e pega o seu perfume preferido espirrando um pouco nos pulsos e depois passando-os no pescoço e peito. O perfume se espalha pelo quarto, deixando um agradável aroma no ar. Enfim ele veste a camisa, colocando por dentro da calça, pega um cinto e uma camisa preta que ele deixa quase toda aberta.
      Vestido, ele sai para a sala, onde pega a chave do carro, desce para a garagem e liga o rádio em uma rádio que costuma escutar…
“…Guiding my heart – Protecting my soul
There is a guardian angel here
She is watching over me
Healing my wounds – Guiding me home
There is a guardian angel here
She is keeping me alive
My Guardian Angel…”

      Uma sensação estranha invade sua alma quando começa a prestar atenção no que a letra da musica diz…
“…Guiando meu coração – Protegendo minha alma
Há um anjo guardião aqui
Ela está olhando por mim
Curando minhas feridas – Guiando-me para casa
Há um anjo guardião aqui
Ela me mantem vivo
Meu Anjo Guardião…”

      Um breve sorriso forma-se em sua mente, quando se lembra de alguém em que essa música poderia ser inspirada, como ela se encaixaria em sua vida, sua atual situação e continua prestando atenção…

“…Eu estou olhando no espelho
Só posso ver um rosto estranho
No que estou me transformando?
Salve-me agora antes que seja tarde demais…”

     A primeira pessoa que vem em sua mente é Patricia, mas como ela pode mexer tanto com ele, um ser de coração frio, corpo gelado… algo mudou desde que a conheceu? O que poderia estar acontecendo? Poderia o coração de um Vampiro ser aquecido? Pode um ser como ele… gostar de um humano… se sentir atraído por uma pessoa?
Valek dirige lentamente o carro enquanto a musica termina e a figura da menina-mulher dança em seus pensamentos, todas as cenas da noite em que a viu, o que conversaram…

“… E vocês ouviram na 102,9 a Rádio Rock, Place Vendome com My Gardian Angel… linda música essa que com certeza mostra que os Headbangers também sabem escrever músicas românticas…”

      Os pensamentos do Vampiro são abafados pelo fim da música e o comentário do locutor da rádio. Quando ele se dá conta de onde estava com o carro, vê a casa de Patricia, logo à frente. Ele decide parar o carro longe da casa dela logo abaixo de uma grande paineira, que estende seus galhos quase até metade da rua, deixando o ser e seu veículo totalmente na penumbra. Ele desliga o veículo, desce do carro e fica praticamente invisível, do outro lado da casa da garota, observando a casa com as luzes apagadas. Fica ali por um bom tempo quando sua mente lhe dá um sinal de alguém que se aproxima…
_ É ela… – O Vampiro sussurra baixo… seu coração salta, como se ainda batesse – Como isso é possível? – pensa ele.
     O ser da noite observa que a uns 10 passos de distancia dela, vem um homem alto, vestido com uma camisa rota e calça rasgada, com um remendo ao lado, com as mãos para trás, ele aperta o passo enquanto Patricia parece perceber e aperta o passo. O aproxima-se e tenta um diálogo com ela…
_ Senhora, pode me dar um real, uma moeda que seja, eu queria comer alguma coisa…
O cheiro de bebida alcoólica invade a narina do vampiro, bem como um cheiro forte de uma droga.
Patricia continua caminhando, puxando sua bolsa para frente do corpo…
_Desculpa, eu não tenho nada…
Valek percebe que o cara leva uma das mãos para trás, e puxa um objeto metálico que brilha contra a pouca luz da rua.
_ Passa a bolsa ”dona”, senão eu te furo!
Valek sente um calor percorrer seu corpo, algo dentro dele grita e o faz agir… Ele movimenta-se com rapidez vampirica, chegando perto de meliante e desarmando-o  com um golpe na mão.
      A garota assustada, de primeiro momento não reconhece o vampiro, mas logo percebe que trata-se do cara do Hells Bells…
_Valek, o que tá fazendo aqui? O que você…
      Ele não consegue se controlar perto da garota, embora a escute, o som está confuso. Ele golpeia o homem na boca, fazendo-o cair ao chão, quando Patricia toca-lhe o ombro…
_ Valek, sou eu, Patricia… Olha, obrigado pela ajuda, vou chamar a polícia quando eu entrar em casa… vem comigo…
_ Patricia… saia daqui, por favor… –  Valek percebe que está tomado pela fúria e fome de sangue, quando sente o cheiro do líquido vermelho que escorre pelo canto da boca do homem que tenta se por em pé após o golpe.
_ Mas Valek…
_ SAI DAQUI! – O vampiro fala asperamente com a menina, mostrando seus olhos verdes, agora quase brancos, tomados pela fome, mostrando os caninos sobresselentes. A garota  começa a chorar assustada enquanto ele pega o meliante pela camisa e some rapidamente. Ele para em um beco escuro, onde segura forte o homem e morde-lhe a garganta, deixando o fluido quente, vermelho correr em sua boca, enchendo-a e sendo absorvido com furor. Lentamente o coração do homem vai parando de lutar no peito, a pele empalidecendo até que finalmente o vampiro pára de beber a vitae e larga o corpo seco de sangue e praticamente sem vida no chão.
      Um tempo depois Valek volta para o local, e seus olhos são cegados pela luz do giroflex que ilumina as casas ao redor da casa da Patrícia, com a luz azul e vermelha. Ele a vê parada, conversando com dois policiais, que querem detalhes do acontecido.  Ele se esconde novamente usando seu dom para sumir nas sombras.
      Em torno de 1 hora se passa quando Patrícia entra novamente em casa, fecha a porta e recosta-se nela, fechando os olhos, suspirando forte… como se estivesse aliviada, mas ainda confusa com o acontecido. Ela coloca a bolsa em cima do sofá, segue para a cozinha, onde bebe um copo de água com açúcar, pensa no que se passou, no que Valek fazia ali… o que era ele?
Algum tempo passa e ela sobe para seu quarto. A luz do corredor ilumina o aposento quando ela abre a porta e quando vai acender a luz do quarto, uma mão a impede, puxando ela para dentro e tampando sua boca.
      Ela se debate tentando se livrar daquelas mãos quentes que a seguram e impedem que ela grite.
_Shhh… Calma Patricia, sou eu, Valek. – Ele estica um dos braços e acende a luz e lentamente solta a moça que vira-se lentamente e olha assustada, tremendo.
_ Como você entrou aqui? O que é você? O que fez com o cara? O que você…
      Ela é interrompida por ele que usa seu poder de domínio sobre ela, para acalmá-la. O ser suavemente encaminha ela, tocando-a nos ombros, para que se sente na beirada da cama, quando enfim liberta-a do domínio, notando que ela está calma.
      Ela ainda mantém o olhar fixo no Vampiro, que está em pé à sua frente.
_ Eu sou o que você viu lá fora… um Sanguessuga, um vampiro.
      Ela olha para ele indignada, balançando a cabeça e solta uma risada…
_ Que ridículo! Absurdo…De onde você tirou aquela maquiagem horrível? Porque queria me assustar?
_ Não tinha intenção de te assustar, eu não usei maquiagem, existo, estou aqui e sou um Vampiro.
_ Não… não é verdade, eles, isto… esse tipo de coisa não existe! Quem é você? Conde Drácula? –     Patricia se levanta e pega o telefone que está na cabeceira da cama, discando 1-9-0, quando o Vampiro tira o fone de sua mão e fica colado com ela, olhando fixamente para a menina-mulher.
_ Não quero te ferir, mas tem que acreditar em mim. Não sei ao certo o que eu vim fazer aqui, mas aquele marginal iria te ferir e eu perdi meu controle. Me desculpe por algum susto que te dei.
_ O que você fez com ele? Para onde foi?
_ Eu… me alimentei do sangue dele. Suguei sua vitae e sumi com o corpo.
_ Mentira… mentira… mentira! Some daqui agora! – Patricia desfere vários golpes no peito de Valek, que segura as, mãos dela, suavemente, impedindo-a de continuar. Ela começa a chorar e encosta a cabeça no peito do ser…
_ Porque você faz isso comigo? Porque?
_ Patricia… eu tinha que vir te ver… precisava disso… – O Vampiro afasta ela levemente, ela ergue a cabeça, ele enxuga suas lágrimas, acaricia o rosto dela, cabelos…  – Eu não poderia estar aqui, eu sou um monstro… mas não resisti em te ver mais uma vez. Ele aproxima seu rosto do dela, quase chegando a beijá-la. O medo mistura-se com vontade de sentir os lábios do vampiro nos dela ao mesmo tempo que sabe que aquilo não é certo, não naquele momento, não naquela situação. Valek a beija, apenas um beijo leve. Ela o sente, fecha os olhos mas quando os abre, simplesmente sente uma corrente de ar e o Vampiro não está mais junto dela.
_ Valek… eu… – Ela perde-se em seu pensamento… segue para a janela, mas não consegue mais vê-lo.
       Algum tempo depois, Valek passa em frente a casa dela, seguindo para o Hells Bells e vê a luz acesa.       O coração dele fica apertado, passa a mão nos lábios, pensando no beijo e imaginando se realmente ela correspondeu…


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